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O MENINO
Quando o menino acordar, chamem-me, pois tenho de lhe dizer que hoje pela manhã vi coisas extraordinárias, desde o nosso vizinho que todo atarefado queimava papéis, ao quartel da tropa fechado, aos polícias que segredavam uns com os outros às pessoas olhando-se, em silêncio a uma velhinha que rezava o terço em voz alta à Igreja Paroquial em preces, e aos meus amigos que festejavam uma revolução em Lisboa.
Quando o menino acordar, finalmente... estará no futuro.
ALGEMAS
Algemas fazem o silêncio, onde se compra amor e canta o fado, tocando-se as guitarras com patilhas feitas de osso.
Bebe-se cerveja, em vez do bom vinho português e fala-se todas as línguas, enquanto uma cantadeira geme o fado do dia.
Nas aldeias o povo contínua cantando, dirigido por padres feitos segundo a concordata, preocupados unicamente com o bem espiritual do seu rebanho, segundo a sua superior perspectiva.
Nas cidades ergue-se a nova religião, com as praxes de todas: — Manifestações públicas de rua, — Assembleias para a proclamação da palavra, — Suas verdades e dogmas.
Apenas uma diferença, em vez do roxo, o vermelho.
Excelentíssimo Senhor
Informo V. Ex. Que o senhor António da Silva, morador na Rua da Liberdade Nº3, tem-se reunido em casa do senhor José Anastácio, morador na Rua Escura Nº27, conhecido pelas suas ideias democráticas, além destes senhores, tem aparecido outros de fora da terra.
No dia 25 passado, a uma mesa do café Atlântico, pelas 19:35, os referidos senhores encontraram-se, tendo ouvido chamar ... fascista ao Senhor Presidente do Conselho.
Por tal motivo e por considerar as referidas pessoas como muito perigosas, comunistas estou certo, informo V Ex. afim de tomar providências, as julgadas necessárias a bem da nação.
O PLÁSTICO
Tudo começou a correr mal, desde o dia em que o José foi trabalhar para a fábrica dos plásticos, ganhar mais foi o único motivo, a família assim o exigia.
Mas a vida não melhorou, os problemas de saúde começaram, as idas ao médico também, todos os seus sonhos foram perdendo-se, na névoa da esperança.
O patrão dizia-lhe ser ele o seu melhor trabalhador.
Só que o José pouco a pouco morria, envenenado pelo plástico, Uma vez queixou-se da saúde em falta, mas resposta não lhe deram, apenas lhe ofereceram mais dinheiro para continuar.
Hoje o patrão do José foi visitar a viúva, apresentar-lhe os seus sentimentos, e ao mesmo tempo, aos filhos oferecer uma lembrança do pai, um balde e uma pá de plástico, para no Verão brincarem, e mais não disse,..
A LIBERDADE
Entrando em contacto com o Jorge Costa, este informou-me que algo de extraordinário anda no ar. - A liberdade e com ela, a criação de um homem novo.
Agora que tal é possível, toda a gente pinta seus pensamentos com a sua cor preferida.
As sementes estão lançadas, o vento fará seu trabalho, poderão muitas não germinar, mas muita terra está apta, a natureza se encarregará do resto, quer queiramos ou não.
O Jorge Costa tinha razão, algo de extraordinário anda no ar, já respiro o seu perfume.
O PODER
Neste caminhar pelos factos, tudo é feito com um objectivo único, chegar ao poder, custe o que custar.
O importante é ser o primeiro e depois dizer aos quatro ventos que todos os outros tudo fazem pelo poder, porque eu sou o único puro.
Fidelidade
As máquinas continuam a trabalhar dia e noite moendo os dedos dos desgraçados que tem necessidade de identificação dedal, como prova de fidelidade partidária.
Este pais que nunca se preocupou com os dedos de ninguém e onde há sempre alguém a surgir de neblina da manhã, esconjurando a nossa orfandade, continua igual a si próprio, século após século.
CONSCIÊNCIA
Quando no ar que respiramos, entram os factos que os outros constróem, com o seu próprio sacrifício.
Quando lavamos as mãos, com o desconhecimento daquilo que aos outros falta.
Quando nos penitenciamos, não comendo carne em alguns dias, quando outros nunca a comem.
Quando tudo isto fazemos, estamos a construir um verdadeiro Estado Social, Cristão e Ocidental, ficando de consciência tranquila e lugar assegurado lá no Céu, distante...
ONTEM
Jamais se eximiu de um divertimento mundano, tomou parte nos bacanais que a sociedade bem, realizava na colónia balnear, durante os Invernos.
Figurou em récitas teatrais nos seus tempos de Coimbra, onde desempenhou o papel de Telmo no Frei Luís de Sousa. Enganou a filha do Livreiro, dando-lhe um filho e não o perfilhando.
Hoje apregoa o seu incansável espírito de servir os pobres, de desfazer-se de parte dos seus bens e vencimento, para compensar os mais desfavorecidos, na criação de uma sociedade sem classes.
De um dia para o outro, tudo passou a ser, uma questão de ética.
NOTICIAS
No Céu o cinzento, na terra o sinal horário para notícias, notícias dos cavalos em corrida, dos Árabes, de Israel, da nossa guerra do racismo, da fome.
Notícias, sempre iguais continuam, contrariando a paz de pouca gente e a indiferença da grande maioria, porque este mundo é lá.
O nosso acaba no umbigo do meu vizinho.
Remorsos
Os morcegos continuam por cima de mim é sentir seus gritos , um dia ceguei um hoje tenho remorsos.
Mal não me tinha feito, apenas não gostava dele, unicamente por ser morcego.
OS MEUS DIREITOS
As conversações continuam no seu estilo natural, entre ameaças de greves e despedimentos.
Aguardam-se melhores dias.
Mas são horas tenho os meus direitos em dia e a minha consciência já tranquila,
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