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Contra capa 1

 

    Caminho

     

     

    Na noite,

    de arma na mão,

    procuro o meu caminho,

    quer existam ou não estrelas,

    indicando o meu destino.

     

     

     


     

     

    Solidão

     

    Coração perdido,

    solidão que embala,

    saudade que me prende, me arrasta, me leva

    onde não sei.

     

    Perdido ando,

    quero o meu mundo,

    quero a minha ilha,

    onde todos os dias veja o mar

    e sinta o seu chamar.

     

     

     


     

     

    Os bisontes

     

    Passaram-se muitas luas,

    os bisontes fugiram,

    gostava tanto dos bisontes,

    gostava dos seus cabelos louros,

    do seu andar seguro.

     

    Porque não comprar

    pilhas para a lua nova

    para ter de volta os meus bisontes.

     

     


     

     

    Correspondência

     

    Solidão, 

    para quem não tem correspondência,

    aproveitando-se alguém,

    para aumentar a produção das salinas,

    que segundo os entendidos  serve para curar doenças.

     

    Então amigo,

    sempre que não tiveres correspondência,

    come um pouco de sal.

     

    Sal das salinas de água que veio do mar, 

    mar da separação e da falta de correio, 

    sem correio é a solidão

    e solidão é capim.

     

    Eu quero queimar o capim,

    quero senti-lo morrer

    e suas cinzas

    lança-las ao vento.

     

    Mas 

    Não voltarei a comer sal,

    amo o capim, mas apaixona-me queima-lo,

    e

    detesto os mosquitos

    porque não me deixam ler

    a minha correspondência.

     

     


     

     

     

    Guerra

     

    Guerra

    e mais guerra.

    Mortos, vivos mortos,

    feridos, vivos mortos,

    capturados, vivos mortos,

    vivos, vivos mortos.

     

    Sublime, belo e humano,

    é apenas,

    o homem em paz.

    Amem.

     

     


     

     

    Formiga

     

    Formiga come formiga,

    formiga gosta de formiga,

    formiga mata formiga,

    formiga tortura formiga,

    formiga destroi formiga,

    formiga desintegra formigueiro,

    formiga deixa de existir.

     

    O mundo deixa de ter formigas,

    o mundo é finalmente feliz.

     

     

     


     

     

    O Sol

     

    Só,

    neste lugar tão longe,

    que não conheço,

    que odeio.

     

    Por isso 

    apago o sol,

    e não vejo a lua.

     

    Neste fim do mundo,

    cheio de mortos bem mortos,

    mortos quase mortos,

    ou mortos ainda vivos,

    a esperança na vida,

    eu ... 

    ainda a tenho.

     

     

     


     

     

    Fumo

     

    Não fumo, e faz cacimbo.

     

    Preciso de cacimbo 

    para esquecer,

    o mato e a caserna minha casa.

     

    Perdido no cacimbo procuro uma saída,

    ainda não a encontrei.

     

     

     


     

     

    Barbas brancas

     

    Ratazanas com barbas,

    barbas brancas como a neve,

    neve que mata  preta,

    pelas barbas brancas das ratazanas.

     

     

    É preciso matar as ratazanas,

    quer tenham barbas ou não,

    para a neve desaparecer,

    e com ela a escuridão.

     

     

     


     

     

    Esquecimento

     

    Quero um barco para navegar,

    se houver tempestade

    e ele se afundar,

    quero que areia me cubra,

    para o mundo me esquecer.

     

     


     

     

    Nada

     

    Nada sei,

    nada faço,

    nada penso,

     

    ando perdido na selva!

     

    Levanta-te 

    vem comigo à procura do nada.

     

     

     


     

     

    Meu monte

     

    No meu monte

    penso construir uma caravela,

    para dar novos mundos, novas terras,

    aos fazedores de impérios falidos,

    senhores da guerra e da verdade.

     

     


     

     

    Peixes

     

    Quero viver como os peixes

    lá no fundo do mar,

    sentir-me-ei então livre

    enquanto não surgir 

    uma rede, 

    um anzol,

    um arpão,

    impondo a ordem das duas patas.

     

     

     


     

     

    Perseguição

     

    Um homem foge,

    a perseguição começa,

    nas ruas e nas avenidas,

    nos parques

    e nos jardins,

    em toda a parte,

    não param,

    tudo serve para a caçada.

     

    È necessário normalizar a anormalidade,

    urgentemente, urgentemente,

    não vá a doença se propagar,

    á sociedade das certezas.

     

     


     

     

    Um balde de terra

     

     

    Vão dar um balde de terra a cada homem,

    para que no mundo não haja fome,

    eu imagino-me com o meu balde de terra,

    nele haverá o belo de um pé de milho.

     

     


     

     

    Anuncio

     

    Precisam-se velas de estearina,

    para a iluminação publica.

     

    Vendem-se abelhas de plástico.

     

    Precisa-se transístor para pessoa culta.

     

    Respostas: Apartado 23 ou 34, tanto faz.

     

     

     


     

     

    Palhaço

     

    Quando ontem te vi,

    não sei porquê,

    tomei-te por um palhaço,

    igual ao que em criança,

    vi a partir um cavalinho de papelão,

    sim de papelão

    como o dos caixotes.

     

    Sorri, para não chorar como em criança,

    ao lembrar...

    o palhaço

    o cavalinho

    e o papelão.

     

     

     


     

     

    Vento

     

    Os aviões caem das nuvens,

    molhando os campos.

    Com os seus destroços,

    transformam a vida

    fazendo medo.

     

     


     

     

    Crianças

     

    Tenho medo das crianças

    que brincam com o mundo,

    lançam-no e atiram-no.

    Qualquer dia partem-no

    e põem-se a chorar.

     

     

     


 

 

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