Caminho
Na noite,
de arma
na mão,
procuro o
meu caminho,
quer
existam ou não
estrelas,
indicando
o meu destino.
Solidão
Coração
perdido,
solidão
que embala,
saudade
que me prende, me
arrasta, me leva
onde não
sei.
Perdido
ando,
quero o
meu mundo,
quero a
minha ilha,
onde
todos os dias veja o
mar
e sinta o
seu chamar.
Os bisontes
Passaram-se muitas
luas,
os
bisontes fugiram,
gostava
tanto dos bisontes,
gostava
dos seus cabelos
louros,
do seu
andar seguro.
Porque
não comprar
pilhas
para a lua nova
para ter
de volta os meus
bisontes.
Correspondência
Solidão,
para quem não tem
correspondência,
aproveitando-se
alguém,
para aumentar a
produção das
salinas,
que segundo os
entendidos serve
para curar doenças.
Então amigo,
sempre que não
tiveres
correspondência,
come um pouco de
sal.
Sal das salinas
de água que
veio do mar,
mar da separação e
da falta de
correio,
sem correio é a
solidão
e solidão é capim.
Eu quero queimar o
capim,
quero senti-lo
morrer
e suas cinzas
lança-las ao vento.
Mas
Não voltarei a comer
sal,
amo o capim, mas
apaixona-me
queima-lo,
e
detesto os mosquitos
porque não me deixam
ler
a minha
correspondência.
Guerra
Guerra
e mais
guerra.
Mortos,
vivos mortos,
feridos,
vivos mortos,
capturados, vivos
mortos,
vivos,
vivos mortos.
Sublime,
belo e humano,
é apenas,
o homem
em paz.
Amem.
Formiga
Formiga
come formiga,
formiga
gosta de formiga,
formiga
mata formiga,
formiga
tortura formiga,
formiga
destroi formiga,
formiga
desintegra
formigueiro,
formiga
deixa de existir.
O mundo
deixa de ter
formigas,
o mundo é
finalmente feliz.
O Sol
Só,
neste
lugar tão longe,
que não
conheço,
que
odeio.
Por isso
apago o
sol,
e não
vejo a lua.
Neste fim
do mundo,
cheio de
mortos bem mortos,
mortos
quase mortos,
ou mortos
ainda vivos,
a
esperança na vida,
eu ...
ainda a
tenho.
Fumo
Não fumo,
e faz cacimbo.
Preciso
de cacimbo
para
esquecer,
o mato e
a caserna minha casa.
Perdido
no cacimbo procuro
uma saída,
ainda não
a encontrei.
Barbas
brancas
Ratazanas
com barbas,
barbas
brancas como a neve,
neve que
mata preta,
pelas
barbas brancas das
ratazanas.
É preciso
matar as ratazanas,
quer
tenham barbas ou
não,
para a
neve desaparecer,
e com ela
a escuridão.
Esquecimento
Quero um
barco para navegar,
se houver
tempestade
e ele se
afundar,
quero que
areia me cubra,
para o
mundo me esquecer.
Nada
Nada sei,
nada
faço,
nada
penso,
ando
perdido na selva!
Levanta-te
vem
comigo à procura do
nada.
Meu monte
No meu
monte
penso
construir uma
caravela,
para dar
novos mundos, novas
terras,
aos
fazedores de
impérios falidos,
senhores
da guerra e da
verdade.
Peixes
Quero
viver como os peixes
lá no
fundo do mar,
sentir-me-ei então
livre
enquanto
não surgir
uma
rede,
um anzol,
um arpão,
impondo a
ordem das duas
patas.
Perseguição
Um homem
foge,
a
perseguição começa,
nas ruas
e nas avenidas,
nos
parques
e nos
jardins,
em toda a
parte,
não
param,
tudo
serve para a caçada.
È
necessário
normalizar a
anormalidade,
urgentemente,
urgentemente,
não vá a
doença se propagar,
á
sociedade das
certezas.
Um balde de
terra
Vão dar
um balde de terra a
cada homem,
para que
no mundo não haja
fome,
eu
imagino-me com o meu
balde de terra,
nele
haverá o belo de um
pé de milho.
Anuncio
Precisam-se velas de
estearina,
para a
iluminação publica.
Vendem-se
abelhas de plástico.
Precisa-se
transístor para
pessoa culta.
Respostas: Apartado
23 ou 34, tanto faz.
Palhaço
Quando
ontem te vi,
não sei
porquê,
tomei-te
por um palhaço,
igual ao
que em criança,
vi a
partir um cavalinho
de papelão,
sim de
papelão
como o
dos caixotes.
Sorri,
para não chorar como
em criança,
ao
lembrar...
o palhaço
o
cavalinho
e o
papelão.
Vento
Os aviões
caem das nuvens,
molhando
os campos.
Com os
seus destroços,
transformam a vida
fazendo
medo.
Crianças
Tenho
medo das crianças
que
brincam com o mundo,
lançam-no
e atiram-no.
Qualquer
dia partem-no
e põem-se
a chorar.
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