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Tôto

 

 

Contra capa 9


 

Antes do embarque

 

No São Martinho de 1968 encontrava-me em Lisboa para embarcar para Angola no dia seguinte a bordo do cargueiro da CCN Porto, eu o Cruz e o Jacinto os açorianos que tinham ido a casa despedirem-se da família e por tal facto perdido o embarque no Vera Cruz, resolvemos juntos festejar este São Martinho, porque o próximo não sabíamos.

Fomos a um restaurante na Rua das Portas de Santo António, comemos e bebemos bem, o empregado mostrou-se sempre muito atencioso, no final quando pedimos a conta ele trouxe-nos um bom prato de castanhas e uma garrafa de água-pé com os desejos da gerência de boa sorte na nossa missão e ele próprio desejava-nos felicidades como teria muita satisfação em servir-nos no nosso regresso.

Este pequeno gesto não sei se era normal ou não naquele restaurante, para nós foi um acto que muito nos sensibilizou. Quando regressamos, lá fomos os três cumprimenta-lo e jantar novamente juntos, no final fizemos questão de abrirmos uma garrafa de champanhe e de brindarmos os 4.

Por vezes a nossa lembrança de uma data fica marcada por um pequeno acontecimento que agora recordamos com satisfação.

 


 

Relação do efectivo

 

Relação nominal do efectivo do CMD AGR 2956 que embarcou em 12OUT1968 na Rocha de Conde de Óbidos com destino a Angola – TOTO no N/M Vera Cruz:

 Major – Luís Manuel Saraiva Vicente da Silva

Major – Helder Fernando Pires Ataíde Ribeiro

Alf Mil – Arnaldo Almeida Casais

Alf Mil – José António Osório

 

1º Sarg – Manuel Maria Pinto Leite

2º Sarg – Manuel Alves Carvalho

Furriel – Luis Loureiro Vigas Serra

Fur Mil – Jose Maria Soares da Silva

Fur Mil – João Manuel Lucas da Silva

Fur Mil – Pedro Falcão Villaverde Cabral

Fur mil – Joaquim João Falcato Rocha

Fur Mil – José Joaquim Pimenta

Fur Mil - Manuel Charrua

Fur Mil – António Cardana

 

1º Cabo – David da Silva Casimiro

1º Cabo – Afonso Nuno Dias Vieira

1º Cabo – José Vasques

1º Cabo – Álvaro Ventura

1º Cabo – Manuel Figueiredo

1º Cabo – Amandio Nunes da Silva

1º Cabo – José Guia Ferreira

1º Cabo – João Lopes da Silva

1º Cabo – José Cabral Coelho

1º Cabo – António Martins Leite

1º Cabo – António Luís Silva

1º Cabo – Mário Fernandes Ribeiro

1º Cabo – Domingos Oliveira

1º Cabo – José Miranda Jorge

1º Cabo – João Lourdes Gouveia

1º Cabo – Manuel Augusto Carvalho

1º Cabo – Eugênio Silva

1º Cabo – Fernando Neves Rocha

1º Cabo – José Almeida Morgado

1º Cabo – Carlos Alberto Rocha Ramos

1º Cabo – João Filipe Franco

1º Cabo – Manuel Augusto Baltazar

1º Cabo – Manuel Costa Cardoso

1º Cabo – Fernando Dias Caetano

1º Cabo – Fernando Fonseca Gregório

1º Cabo – Albertino António Mestre

1º Cabo – Alberto Mário de Sá

 

Soldado – Amilcar Alfredo Lousada

Soldado – Francisco Codicio Marques

Soldado – José Veríssimo Aleixo

Soldado – António Costa Martins

Soldado – Aristides da Silva

Soldado – António Leal da Silva

Soldado – Bernardino Barbosa Peixoto

Soldado – Mário Pinto Guerra

Soldado – João Bento Rebola

Soldado – João Carvalho do Rosário

Soldado – Manuel Antunes Porto

Soldado – Adriano Marques Baltazar

Soldado – Manuel Deldino Lopes

Soldado – António Laranjo Traquinas

Soldado – António Albino Basilio

Soldado – Manuel Joaquim Apolinário

Soldado – António Martins Oliveira

Soldado – Joaquim Araujo Gonçalves

Soldado – José Maria Teixeira Leite

Soldado – Manuel Santos Jesus

Soldado – José Martins Pereira

Soldado – Inácio Costa Ferreira

Soldado - Armindo Pereira Silva

Soldado – Manuel Poceiro Pinto

Soldado – Ilidio Pinto Barbosa

Soldado – António Lopes Neves

Soldado – Fernando Outeiro Leitão

Soldado – Manuel António Martins

Soldado – Ricardo Vaqueirinho Mendes

Soldado – João Martins Penedo

Soldado – Fernando Santos Torres

Soldado – João Teixeira Costa

Soldado – Manuel Sousa Gonçalves

Soldado – José Bastos Cordeiro

Soldado – Alberto Pereira Silva

Soldado – Albino Guilherme Azevedo santos

Soldado – Asdrubal Costa Leiria

Soldado – Henrique Madaíl Almeida

Soldado – Gilberto da Glória

Soldado – José Silva Castro Oliveira

Soldado – Manuel Castro Bogalhas

Soldado – Albino Silva Pereira

Soldado – Luís Marques.

  Aumentos

02DEZ1968 apresentou-se o Alf Mil Jose Bebiano Costa Lopes

06DEZ1968 apresentaram-se vindos da Metrópole:

Fur Mil Carlos Martins Soares Carepa

Fur Mil José Jacinto Pacheco Soares

Fur Mil Octávio Américo Clemente Cruz

06DEZ1968 apresentou-se 1º cabo cripo Alberto Mário Teixeira Carvalho Sá.

22DEZ1968 apresentaram-se vindos da Metrópole:

Soldado António Pimenta Pereira

Soldado Pedro Virgílio Vicente Freitas

Soldado José Mendes Cruz

31DEZ1968 apresentou-se o Alf Mil João José Bastos dos Santos

03FEV1969 Tem Cor Francisco Manuel Costa Almeida

25FEV1969 Promovido a Brigadeiro o Comandante do Agrupamento 2956 Pedro Alexandre Canto e Castro Serrano.

11ABR1969 apresentou-se o Fur Mil António Fernando Santos Silva

23Mai1969 apresentou-se o 1º cabo cripto Norberto José Seguro

04JUL1969 apresentou-se o Major Fernando Negidio Santos Ferreira

21Jul1969 apresentou-se o Alf Mil médico José António Silva Costa

24Jan1970 apresentou-se o Alf Mil Miguel Angelo Lambertini Gouveia.

 

Espero não me ter esquecido de ninguém, se tal aconteceu as minhas desculpas.

 


 

A ordem de mobilização

 

A ordem de mobilização que nos levou até Angola em 1968 tinha o número 92 e a data de 23 de Julho e podia-se ler:

Por determinação superior deve proceder-se à mobilização do CMD AGR 2956 destinado a render o CMD AGR 1978 em serviço na RM de Angola.

O CMD AGR é organizado de 26 de Agosto a 31 de Agosto de 1968.

A instrução é ministrada de 9 de Setembro a 28 do mesmo mês.

A licença é atribuída de 30 de Setembro a 9 de Outubro.

Condições de embarque a partir de 12 de Outubro.

Data de embarque 12 de Outubro de 1968.

Meios de transporte a utilizar o N/M Vera Cruz, arvorado em transporte de tropas.

Local de embarque Cais da rocha Conde de Óbitos.

Concentração do pessoal com inicio previsto para as 06,30h devendo estar terminado pelas 08,00h.

Embarque mediante indicação do delegado da DST no Cais, guiados pelos subalternos e sargentos que procederam ao reconhecimento do navio, os grupos de embarque arrumam as bagagens nos alojamentos que lhes foram destinados e retomam ao Cais, formando em local previamente escolhido pelos seus comandantes.

O comandante das forças embarcadas é o Major de Cavalaria Luís M. S. Vieira da Silva do CMD AGR 2956.

O pessoal embarca usando o seguinte fardamento:

Boina castanha

Dolman de campanha com distintivo do posto

Camisa de campanha da sem gravata

Calça de campanha com cinto de lona

Botas de cordões com polaina fixa

 


 

Cerimonia de despedida

 

Em 12 de Outubro de 1968 e após terminada a concentração no Cais de embarque da Rocha Conde de Óbidos do pessoal a embarcar, pelas 8 horas foi concedido aos militares que contactassem com os seus familiares e amigos que em grande numero e se haviam ali deslocado para assistirem à partida.

Pelas 10 horas foi realizada uma formatura geral de todas as unidades a embarcarem no N/M Vera Cruz, a que passou revista o General Arnaldo Schulz em representação do Ministro do Exercito.

Após a revista, as forças em parada desfilaram, prestando continência àquela entidade , seguindo-se o embarque.

No momento daquele foram distribuídas pelas Senhoras do Movimento Nacional Feminino lembranças.

Pelas 12, 00 horas o navio Vera Cruz largava rumo a Angola, ao som da banda do Batalhão de Caçadores 5, postada no Cais de embarque.

 


 

A viagem

 

Durante os 9 dias da viagem do Vera Cruz para Luanda, foi ministrada instrução ao pessoal versando:

Comportamento a bordo.

Exercício de abandono do navio

Noções de higiene

Palestras no âmbito da acção psicológica relativa à guerra do ultramar

Foi nomeado diariamente um oficial de assistência ao CMD AGR 2956 bem como um sargento e um cabo de dia a fim de orientarem o serviço geral como as refeições, formaturas, instruções etc.

Tiveram também lugar a bordo diversas actividades recreativas, tais como campeonatos de ping-pong, luta de tracção, e espectáculos de musica e cinema.

 


 

Desembarque

 

A 21 de Outubro de 1968 atracou no porto de Luanda o N/M Vera Cruz, iniciando-se em seguida o desembarque.

Terminado aquele o pessoal e bagagens deslocaram-se por via férrea para o Campo Militar do Grafanil, onde o General Comandante da Região passou revista às tropas.

Após esta cerimonia deslocou-se o CMD AGR para a área que lhe foi atribuída no Campo Militar do Grafanil, onde bivacou até ao dia 29 de Outubro.

 


 

Ordem de movimento

 

Pela Ordem de movimento Nº 51/68 de 24OUT1968 foi estabelecido o seguinte movimento para o CMD AGR 2956:

Missão – O CMD AGR 2956 desloca-se para o TOTO onde rende o CMD AGR 1978 que regressa à metrópole.

Execução – Itinerário: Luanda, Caxito, Ucua, Piri, Ponte do Dange, Aldeia Viçosa, Quitexe, Carmona, Songo, Nova Caipemba, Vale do Loge, Toto.

Ponto inicial – Porta de armas do Grafanil 29OUT1968 pelas 06.00 horas.

A marcha efectuou-se em duas etapas e sem incidentes.

Assim 29OUT1968 pelas 16,30 chegada a Carmona, tendo o pessoal ficado no BCAÇ 12.

Em 30OUT1968 pelas 08,00 partida de Carmona tendo o CMD AGR 2956 chegado ao Toto pelas 16.30.

De acordo com o plano de sobreposição do CMD AGR 2956 com o CMD AGR 1978, aquele foi efectuado por fases para a transferência dos vários serviços, tendo o CMD AGR 2956 assumido a responsabilidade do Comando de Sector em 09NOV1968 pelas 00,00. 

 


 

O TÔTO

 

Quando chegamos em Novembro de 1968 o quartel do Totó já estava instalado no antigo Hotel local frequentado, antes da guerra, pelos fazendeiros da região, que ali iam beber, divertir-se e procurar prostitutas

 O quartel do Totó era constituída por 3 casas em alvenaria, sendo duas de dois pisos e uma de um, anteriores ao inicio da guerra, as restantes instalações foram construídas pelas sucessivas levas de militares que por lá passaram.

 Perto do Quartel do Toto existiam duas sanzalas: a "Sanzala Velha, perto da "lagoa", e a "Sanzala Major Mira", esta construída, perto do comércio do Sr. Cid Adão, pelo exército para tentar fixar e controlar população indígena. no Toto existia uma represa, denominada pela tropa  comummente por “lagoa” e construída,  pelo Sr. Cid Adão junto de um palmar.

O Sr. Cid Adão não era um tradicional fazendeiro mas explorava, com autorização das autoridades administrativas, os cafezais de várias fazendas da região, abandonadas pelos proprietários quando eclodiu a guerra em 1961, num raio de 20Km com centro no Totó, actividade em que tinha como um sócio um Sr. Américo

 A população indígena sentia-se relativamente segura, não sendo hostilizada, quer pela tropa, quer pela guerrilha, sendo que esta tinha nos indígenas uma boa fonte de informações e de apoio logístico, em particular de medicamentos obtidos nas consultas do médico militar, onde acorriam frequentemente e em número apreciável

 No alto de um pequeno monte sobranceiro ao quartel erguia-se uma pequena ermida que julgo construída pela missão do Bembe, mas na altura sem actividade de culto.

 A plantação de palmeiras dava um ar agradável ao conjunto que se estendia por 1 a 2 km até à lagoa do Toto, esta tinha aproximadamente uns 500 a 800 metros de diâmetro, constituindo um local muito bonito, onde se retirava a água que era de boa qualidade.

 


 

A sanzala
 

Os residentes na sanzala do Toto eram na sua maioria trabalhadores de Cid Adão que por motivo da guerrilha tinham fugido e lentamente voltado principalmente por motivos de sobrevivência.

Viviam entre dois medos permanentes, um dos guerrilheiros que periodicamente por lá passavam, o outro da tropa que os podiam acusar em qualquer altura de terroristas, mas entre estes dois mundos, pelo menos ali tinham alguma protecção alguma educação e apoio em saúde dado pelos militares.

Não tinham direito à terra e era-lhes proibido cultivarem qualquer pedaço, o que eles faziam às escondidas quer do sócio do Cid Adão, quer da tropa e quando as suas pequenas hortas eram descobertas, destruíam-nas, sem qualquer cuidado, depois da nossa chegada também não voltamos a encontrar novas hortas apesar dos protestos quer do Sr. Cid Adão quer do administrador de posto em nome daquele.

A pequena sanzala era constituído por umas trinta pequenas casas de uma divisão, feitas em blocos de lama secos ao sol e cobertas com chapas de zinco, a frente era desenhada com duas pequenas janelas e uma porta ao centro, a implantação era de uma única rua central larga, com uns 50 metros, ladeada por umas quinze a vinte casas..

Havia umas cinquenta crianças e alguns velhos, estes muito respeitados e uma pequena escola com uma jovem professora que lá vivia durante o ano escolar.

Toda a vida e trabalho era feita principalmente à volta do quartel, alguns homens trabalhavam para o Sr. Cid Adão unicamente em trabalhos de manutenção do palmeiral e na recolha de café e nada mais havia num raio de 20 Km.

 


 

A minha lavadeira

 

A Maria era como eu a chamava, nunca soube o seu verdadeiro nome, tinha penso 30 e poucos anos e vários filhos, falava pouco português e só com dificuldade conseguia estabelecer uma conversa.

 Quando cheguei ao Toto ela percebendo que eu tinha chegado há poucos dias veio-me pedir para lavar a roupa. Era o único emprego possível em alguns quilómetros, olhando para a criança de poucos meses na anca disse-lhe que sim, os seus olhos transmitiram muito contentamento e assim estabelecemos uma amizade que se estendeu ao companheiro e às crianças.

 Poucas vezes a visitei e à família na sua casa de uma única divisão, feita de blocos de lama cosidos ao sol e com o teto de chapas de zinco, sempre lá fui recebido com afecto, em especial pelas crianças e pelo companheiro, mas transmitiam-me alem da amizade receio ou mesmo medo, razão que me impedia conscientemente de voltar.

 A nossa tropa era o factor de segurança daquela pobre gente explorada durante gerações por fazendeiros sem escrúpulos e o trabalho de lavadeira, os seus únicos rendimentos, razão porque permaneciam a uns 100 metros do quartel.

 Nos dois anos que permaneci no Toto, a Maria sempre se apresentou envergonhada, à minha partida toda a família veio despedir-se, ela chorou, mas também estava contente porque eu voltava para casa, confesso que também me comoveu e foi de quem trouxe saudades, hoje lembrando-me deles e interrogo-me sobre o que a vida lhes terá reservado nos trinta anos seguintes de guerra. 

 


 

O primeiro susto

 

Era 17 de Janeiro de 1968, tinha chegado ao Toto, norte de Angola, havia uns 20 dias, tudo para nós ainda era novidade, as instalações precárias como o meio envolvente, onde apenas existia uma pequena aldeia com uma centena de naturais que viviam em condições de grande pobreza. 

 Pelas nove horas da manhã o homem da rádio correu a informar o comandante que por informações de uma avioneta uma das colunas da companhia de Quimaria se encontrava por terra sem dar sinais de vida.

 Depressa o receio se propagou a todos, o oficial de dia mandou tocar a reunir e foi dada ordem de organizar uma coluna de socorro. Este era o nosso baptismo de uma guerra que ainda não era questionada por não a sabermos enquadrar na terra que apenas nos tinha recebido há tanto pouco tempo.

 O Cruz das operações especiais estava em estado de transe por finalmente ir enfrentar o inimigo, nós os outros estávamos apenas assustados.

 Passados uns trinta minutos lá saiu a coluna e em quarenta minutos, feitos por uma picada em mau estado e com cuidados na segurança reforçados, chegamos ao local da emboscada, constatamos estarem todos por terra, numa primeira análise pareciam todos mortos mais de vinte jovens militares.

 Feita a segurança ao local deu-se inicio à verificação do estado de cada vítima, o comandante da coluna e o enfermeiro constataram então que 17 estavam mortos e 6 estavam feridos com gravidade necessitando evacuação.

 Foi mandada mensagem para nos enviarem uma viatura pesada com o fim de transportar os mortos e solicitado um helicóptero para as evacuações. Passadas umas três horas e depois das evacuações feitas, regressamos ao quartel com uma GMC transportando 17 cadáveres, que nos acompanharam ainda durante dias e dias para identificação e se criarem as condições de serem transportados aos seus locais de nascimento.

 Entre os feridos houve um primeiro sargento cuja a bala que o feriu raspou a testa fazendo um golpe na pelo como se feito por uma faca, tinha ficado a 1 milímetro da morte, o seu estado não era grave, mas o susto tinha sido tal que o militar estava em estado de choque não conseguindo dizer qualquer palavra ou manifestar qualquer emoção, seguiu junto dos outros feridos graves para Luanda. 

 A informação pública dos mortos, foi feita ao longo de semanas, anunciando-se de cada vez uma ou dois mortos em combate, razões psicológicas, foi o que nos foi dito deste tipo de comunicação, na altura e no local até compreendemos.

 


 

Linha ao metro

 

Depois da emboscada à companhia de Quimaria a 17 de Janeiro e que já aqui referenciei, começamos aos poucos a tomar consciência da envolvente social que nos rodeava.

 Uma das coisas que nos custava aceitar era os naturais terem de comprar água ao balde de 5 litros, numa torneira junto ao estabelecimento de Cid Adão. Dentro de um espírito de cooperação com a população o Comandante do Sector mandou colocar uma torneira junto à porta de armas, mas na parte de fora da mesma para fornecer água gratuitamente aos naturais, água do próprio quartel, rapidamente isso foi feito e o fornecimento garantido, para a satisfação e contentamento geral.

 Passados alguns dias apareceu o administrador de posto do Bembe circunscrição a que pertencíamos, com a indicação que não podíamos fornecer gratuitamente água porque prejudicava  as actividades comerciais do Sr. Cid Adão, esta orientação foi rapidamente cumprida, mudamos a torneira para o interior do quartel junto à sentinela da porta de armas, agora era a tropa que oferecia a água nas suas instalações.

 Outra que pensávamos ser uma lenda mas que assistimos pessoalmente era a venda de linha ao metro, as mulheres pediam tantos metros de linha que era retirada de um normal carro de linha para um pauzinho, medida e paga ao metro, também passamos a vender linha não ao metro mas ao carro, não se imagina a admiração que isso provocou nas mulheres de toda a aldeia. 

 Estes dois pequenos acontecimentos insignificantes, marcaram daquela população numa diferença que nos acompanhou até ao fim da comissão.

 


 

Funeral

 

Estávamos no Totó há pouco tempo quando veio à porta de armas um natural que queria falar com o sargento de dia, ao aparecer ele pediu-me se era possível comprar umas caixas de cerveja porque a mãe tinha morrido e ele queria fazer-lhe uma festa digna dela, se eu lhe comprasse as cervejas também estava convidado.

Depois de lhe ter satisfeito o pedido, fui à noite à sanzala, por curiosidade, um rádio portátil colocado no centro de um improvisado redondel tocava um batuque no volume máximo, um grupo dançava embebido pela ritmo vindo da k7, na casa estava o cadáver embrulhado numa mortalha preta esperando a madrugada para ser sepultada.

 Mais tarde perguntei a um idoso a razão daquela festa, então ele explicou-me o motivo era por aquela que tinha morrido, deixava assim o sofrimento da vida e todos os seus amigos e familiares deviam festejar também com alegria aquela libertação.

 Vindo de um lugar tão distante e com tradições judaico-cristãs tão diferentes, apreciei aquela libertação festiva e compreendi-a porque a vida daquela população era verdadeiramente sofredora não só de uma guerra que durava havia já 8 anos como da exploração por estrangeiros a que estava sujeita na sua própria terra.

 


 

Colonialismo

 

Como anteriormente já mencionei, aos naturais eram-lhes proibido cultivarem qualquer pedaço de terra, o que necessitassem tinham de comprar no comércio local, sempre pertencente ao senhor da localidade ou da fazenda, assim eram mantidas relações de trabalho obrigatórios ad perpetuo para pagamento dos bens levantados.

 A esta situação vergonhosa, mas existente, no período em que permanecemos no Totó acresce ainda e relativamente à caça onde o Sr. América levava alguns residentes para carregarem os animais abatidos, búfalos com designação de pacassas, depois tiravam as peles para curtirem, desusavam as carcaças, ficando para os naturais apenas os ossos da carcaça, por segundo o Sr Américo não gostaram de carne.

 Por não aceitar tal resposta perguntei a vários, todos responderam-me o mesmo, se não comiam carne era porque não podiam compra-la ao preço que o Sr. Américo queria, porque preto não é tolo gosta de carne como o branco.

 Outra situação que me surpreendeu, por ao princípio não a compreender, era nas picadas os naturais ao verem qualquer carro metiam-se, talvez melhor, atiravam-se, para os lados magoando-se por vezes.

 Ao procurar as causas de tal atitude incompreensível para nós, vim a obter como resposta se não de desviassem rapidamente eram mortos pelos brancos que iam no carro, porque o carro não se desviava e vários conhecidos deles morreram assim.

 Isto foi em 1968/70 e não há séculos.

 


 

40 anos depois

 

Depois de regressar em 1970 fiz a minha vida profissional e familiar tendo colocado a minha passagem por Angola no meu arquivo da memória.

 Só muito raramente e por questões particulares ou por encontrar algum camarada pessoalmente é que revivia aqueles momentos passados, apesar de anualmente o Franco me enviar a carta relativa ao encontro anual dos camaradas do Cmd Agr 2956, e sempre naquele dia estar em sintonia com a festa.

 A distância e o trabalho foram sempre factores impeditivos, agora na reforma e ao celebrar-se os 40 anos do nosso embarque decidi ser altura para me deslocar e estar pessoalmente todos.

 Os anos passaram e modificaram a nossa aparência e foi com dificuldade que consegui associar as imagens de cada um, passados 40 anos, mas se foi um momento agradável pela recordação certo é que cada um fez o seu caminho e continuará a percorre-lo até ao fim e agora resta-nos apenas um dia por ano para a festa do encontro e pouco mais.

 


 

Fotografias

 

Há anos que não consultava as fotografias da minha permanência em Angola, ao revê-as algumas já amareladas, outras a perderam a cor, veio-me à memória aquele tempo com 21 anos cheio de esperança no futuro e na paz.

Relembrar o Pimenta, o Charrua, o Santos Silva o Vila Verde, o Cruz, o Jacinto e todos os outros sem excepções é recordar a amizade e a camaradagem, dois pilares que marcaram a minha vida futura.

  


 

A festa dos 40 anos

 

Passados 40 anos eis que pela primeira vez voltei a encontrar os camaradas do Comando de Agrupamento 2956, com um programa bem elaborado pelo João Franco e o Segurado e onde todos nos sentimos bem e jovens de 20 anos.

 No dia 10 fomos chegando aos poucos e tive de recorrer às minhas lembranças em busca de pessoas agora de cabelos brancos e com 60 anos, onde para muitos sem a ajuda do nome me era impossível o reconhecimento, mas com maior ou menor dificuldade todos passaram de novo e durante algumas horas a fazerem parte do presente.

 O primeiro a encontrar foi o Jacinto, depois o Leite e todos os outros que por me poder esquecer de algum não os vou referir pelo nome, mas o importante foi o encontro de todos aqueles que se dispuseram a compartilharmos momentos de muito boas recordações vividas no Norte de Angola entre 1968 a 1970.

 No dia 11 de Outubro às 10:00 fomos até Tercena para jogar e assistir a um jogo de futesal, entre os que de nós se sintam mais capazes.

 Às 12:30 deslocamo-nos até perto do Cacém para almoçar no Restaurante Regiões.

 Às 15:00 visitamos o Museu da Pólvora.

 Às 17:30 colocamos uma coroa de flores no Monumento aos Combatentes do Ultramar em Pedrouços.

 Às 18:30 assistimos no Mosteiro dos Jerónimos a uma missa onde foram referidos os nomes dos nossos ex-companheiros que sabemos já terem falecido.

 Às 20:00 foi o jantar, momento alto da nossa festa convívio que se prolongou para depois da 01 da manhã.

 Sem melindre para os restantes quero manifestar a minha alegria pelo encontro com o Pimenta, o Charrua, o Santos Silva, o Jacinto, o Carvalho, o Franco e o Casais.

 


 

Actualmente

 

Não posso deixar de terminar este desfilar de memórias sem referir a minha satisfação por agora poder assistir directamente à TPA – Televisão Publica de Angola e ver os angolanos a construírem por eles próprios, a sua cultura e o seu país.

 Como gostaria de um dia encontrar no Totó, a minha lavadeira, aqueles idosos com quem conversava nos domingos e aquela jovem cujo nome me esqueci mas que para nós era a mais bonita da sanzala.

Depois do nosso embarque passaram-se infelizmente muitos anos de guerra, o meu desejo agora na paz é que ela permaneça em Angola para sempre, para os angolanos encontrem o seu caminho, o nosso (Cmd Agr 2956) por Angola terminou há 40 anos.

 

 

 

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